No auge da colheita, a principal porta de saída da soja mato-grossense pelo Arco Norte se transforma em um corredor de espera improvisado, onde caminhoneiros convivem com a falta de estrutura básica.
“Aqui a gente tá jogado basicamente, estamos largados no relento. Não temos banheiro para fazer as necessidades, até os colegas passam fome muitas vezes. Se não fossem os meninos que passam vendendo marmitex, a gente passava aperto.”
O relato é do caminhoneiro Luigi Brischiliari, que aguarda há dias para descarregar a carga de soja que buscou em Sinop (MT) para entregar no Porto de Miritituba (PA).
A situação, segundo ele, vai além do desconforto físico e atinge o emocional. Segundo Luigi, o impacto também é um problema para caminhoneiros que dependem do frete para sustentar a família.
“Aqui estão muitos pais de família que não tinham que passar por esse descaso. O que abala muito é o psicológico. É tortura psicológica o que a gente sofre aqui, porque eu tô aqui nesta fila há tantas horas”, disse em entrevista a TVCA.
Veja vídeo:
Na última terça-feira (24), o congestionamento de caminhões na região de Itaituba (PA), às margens da BR-163, chegou a 20 quilômetros, mas já há registro de fila de mais de 30 quilômetros para conseguir descarregar a soja. A fila chega a reunir até 4 mil veículos.
O tempo de espera varia, mas, quando não há necessidade de passar por triagens adicionais, o prazo mínimo relatado pelos caminhoneiros é de 40 horas.
Luigi trabalha há oito anos no transporte de soja e afirma que o problema se agravou nas duas últimas safras. Para ele, o aumento do fluxo de caminhões pressiona um sistema que já opera no limite. Ao avaliar as causas do congestionamento, aponta falhas na organização da cadeia de transporte.
“Isso aqui é uma falha logística das transportadoras e isso é complicado. Ficamos à mercê dessa situação triste. A gente só pede o mínimo, que é a dignidade. Eu venho para conquistar meu pão”, apontou o profissional.
Arco norte
O Porto de Miritituba é considerado estratégico para o escoamento da soja de Mato Grosso. Cerca de 35% dos grãos exportados pelo Brasil saem pelos portos do Arco Norte. A rota encurta distâncias até mercados internacionais e oferece, em muitos casos, fretes mais competitivos, esse fator tem atraído produtores de diferentes regiões, intensificando o fluxo na BR-163 e provocando um “colapso logístico” durante o pico da safra.
Entre fevereiro e abril, período que concentra o maior volume de embarques de soja, o gargalo se torna mais evidente. A expectativa de uma safra superior a 50 milhões de toneladas em Mato Grosso amplia a pressão sobre os corredores do Norte, que ainda enfrentam limitações estruturais, incluindo trechos rodoviários com histórico de problemas de pavimentação, em especial durante o período chuvoso.
ANTT se movimenta
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) abriu audiência pública para discutir a readaptação e otimização do contrato de concessão da BR-163/MT/PA atualmente administrada pela Via Brasil BR-163 Concessionária de Rodovias S.A.. Entre as cidades que devem receber os debates está Sinop (MT), no dia 6 de abril, um dos principais pontos de saída dos grãos (soja e milho) do estado.
A proposta em debate prevê investimentos estimados em mais de R$ 10,6 bilhões, ampliação do prazo contratual e possibilidade de processo competitivo para uma possível troca de operador. Segundo a agência reguladora, o crescimento do tráfego de caminhões pesados superou as projeções originais do contrato, provocando desgaste prematuro do solo da rodovia e aumento dos custos de manutenção.
Enquanto as discussões se arrastam, a realidade na beira da estrada permanece marcada pela espera. Sem banheiros fixos, pontos adequados de apoio ou alimentação estruturada, motoristas dependem de vendedores ambulantes para as refeições e improvisam condições mínimas de higiene.
-
Caminhoneiros aguardam até 3 dias para descarregar em Miritituba
-
Soja: chuva atrasa colheita em MT e perdas chegam a R$ 1.800 por ha
-
Fila de 25 km trava escoamento da soja de MT no Arco Norte
-
MT lidera produção de grãos, mas enfrenta pressão nos preços