A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) avalia que o conflito no Irã torna o cenário “delicado” para os produtores rurais brasileiros e que o impacto sobre combustíveis e fertilizantes será maior que o do conflito da Rússia contra a Ucrânia, iniciado há quatro anos.
Bruno Lucchi, diretor técnico da entidade, lembrou que 30% dos fertilizantes nitrogenados, como ureia, importados pelo Brasil são de países do Oriente Médio, mas esse não é o momento de compra. Ele citou ainda que há outros fornecedores desses insumos, mas que os preços ficarão mais altos.
“No início da guerra entre Rússia e Ucrânia, as commodities estavam em alta, diferente do cenário de agora em que o produtor está endividado, as taxas de juros são elevadas e os fertilizantes já estavam mais caros que o normal. É uma crise muito maior do que tivemos anteriormente”, afirmou nesta quarta-feira (11/3), em coletiva de imprensa na Câmara dos Deputados.
Combustíveis
Cresceram os relatos de aumento no preço do óleo diesel por produtores rurais. Episódios no Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso, Pará e Goiás têm chegado à CNA. A alta, que era em torno de R$ 1 por litro na semana passada, agora é de R$ 2. Em algumas situações, o índice chegou a R$ 9 nas bombas de combustíveis.
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A entidade pediu à Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para reforçar a fiscalização e evitar um “alarde desnecessário” que gera aumentos desproporcionais nas bombas. Nessa terça-feira (10/3), o apelo foi pela redução momentânea da cobrança de tributos federais e estaduais sobre os combustíveis.
O pedido para aumento na mistura de biodiesel ao diesel, de 15% para 16% ou 17%, não deverá ser atendido imediatamente. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, confirmou que a reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) foi adiada para 19 de março. Ele não mencionou a inclusão da pauta dessa solicitação do setor.
As usinas de biodiesel correm contra o tempo para convencer o governo a adotar testes rápidos para validar o teor mais alto de adição do biocombustível, o que abririra caminho para aprovação da resolução pelo colegiado na semana que vem. Pelo cronograma atual, a testagem só ficará pronta na metade do ano. A solicitação também é para que essa elevação da adição seja considerada uma excepcionalidade por conta dos efeitos da guerra no Irã nos preços internos dos combustíveis fósseis.
A preocupação é grande por conta da alta demanda por diesel nas propriedades rurais nesta época do ano, com colheita de soja e arroz em curso e o plantio da segunda safra de milho, além do escoamento da produção, feita majoritariamente por caminhões movidos a diesel.
“É um momento delicado com o confronto internaconal. O produtor já vinha com o custo elevado de produção em relação aos fertilizantes, por conta de preços que não baixaram depois da pandemia, diferentemente dos preços das commodites que estão inferiores ao período da pandemia”, afirmou. “Esses problemas se somam agora a alta do diesel que passa de R$ 2 em boa parte das regiões brasileiras”, completou.
“É a pior situação possível. O alarde que se tem feito é desnecessário, com aumentos fora da realidade. Isso gera uma procura artificial como ocorreu na pandemia com o arroz. Nesse momento queremos que o mercado se traduza na realidade, por isso apresentamos a demanda de aumentar fiscalização para ter valor correto que chega nas bombas”, ressaltou Lucchi.
Ele destacou que o Brasil importa entre 20% e 30% do diesel que consome e que a Petrobrás é a principal importadora. “A Petrobras ainda não fez nenhum repasse, nenhum aumento, por isso não dá explicar porque há um aumento desproporcional como esse”, explicou.
Na avaliação da CNA, o cenário é pior para Estados do Norte e Nordeste, que dependem da chegada de fertilizantes que entram por portos do Sudeste e do Sul e da logística feita por caminhões a diesel. “Os Estado do Nordeste e do Arco Norte vão ter custo ainda mais elevado, porque tem muitos insumos que cortam o Brasil para chegar lá. Isso será extremamente negativo para o setor”, concluiu.
O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), disse que o movimento pode gerar alta nos preços dos alimentos, com impacto na inflação do país, se nada for feito para controlar os efeitos da guerra sobre combustíveis e fertilizantes.
“A safra já teve um custo altíssimo de produção, é óbvio que vai custar para o produtor e que o atravessador vai repassar ao consumidor. É tudo isso que estamos tentando evitar, fazendo com que produtor continue tendo rentabilidade e o preço lá na gôndola não suba, até porque isso significa inflação em momento extremamente complicado da economia”, apontou.